Exposição Individual

03.10.2026 – 28.11.2026

E OS OLHOS VOLTARAM-SE PARA OUTRO LADO

TIAGO ROMÃO

© REGISTA

E OS OLHOS VOLTARAM-SE PARA OUTRO LADO

Tudo à volta era familiar, não havia muita luz, nem interessava, os olhos adaptam-se. Convencido de que já tudo conhecia, olhava com preguiça. Já nem tudo era sobre o que via, era talvez mais sobre o que se lembrava.
Foram-se amontoando as memórias: do que via, do que viu há instantes, bem como a mentira das memórias do que vira toda a vida. Tudo pousava, como um tecido, sobre as coisas, os lugares e as pessoas. Já não distinguia o que era mais importante, pois tudo se assemelhava, nada era mais nem menos do que tudo o resto.
Não precisou de olhar mais, já olhou demasiado, e os olhos cansam-se.
Então já não era sobre o que via, nem do que se lembrava de ver, nem das mentiras que criou. Debalde se tinha esforçado por ver melhor, convencido de que iria compreender melhor. Contudo o tempo passava, a vista turvara e, de memória débil, já não via melhor nem se lembrava de nada, já nem mentia, convencido da sua verdade.
Cansou-se, e os olhos voltaram-se para outro lado.

*

Apresenta-se aqui uma série de imagens que acumulam cenas prosaicas, memórias e vislumbres, sobrepostos em diferentes camadas de tempo: o tempo do olhar curioso, atento e expectante, mais o tempo do olhar que se cansa e se acostuma ao que já julga conhecer. O tempo da memória que persiste: o que os olhos viram e não compreenderam, mais o tempo de esquecer tudo. O tempo de afinar a cor e escolher o pincel, mais o tempo de chegar à tela sem perder tempo. O tempo de duvidar, de raspar e apagar e refazer, o tempo de quem desenha o que vê e, na tela, deixa de confiar inteiramente nisso. Finalmente, o tempo do quadro contra a parede para não ser mais visto.
Entre dúvidas que se acumulam e certezas que teimam em ganhar forma, surgem as imagens: o objecto que se repete, a vista da janela, o reflexo do espelho onde se vê todos os dias, os lugares de agora e do passado, os espectros — tudo tem a mesma proximidade mundana, tudo feito do mesmo aglomerado de matéria e tempo, da mesma familiaridade de que, de tanto se repetir, o olhar se desinteressa — o resultado são cenas sugestivas, sem narrativa fixa, povoadas por coisas banais, situações ambíguas, presenças e atmosferas estranhas.

Tiago Romão, 2026

© REGISTA

Biografias:

Tiago Romão (Braga, 1985) é pintor, vive e trabalha no Porto desde 2013, estudou pintura na Faculdade de Belas Artes do Porto. É membro co-fundador, artista residente e professor de desenho e pintura no Túnel — plataforma interdisciplinar de produção artística e cultural — desde 2022. Expõe individual e colectivamente desde 2014.
Desenvolve uma prática artística centrada na pintura a óleo e no desenho. O trabalho parte frequentemente da observação directa, privilegiando o desenho como estrutura e a pintura como extensão do processo. Valoriza a construção lenta, por camadas de matéria e cor. Entre naturezas-mortas, retratos, auto-retratos, paisagens e espaços, pinta aquilo que lhe é mais familiar: os objectos de casa, os interiores que habita, os lugares e as pessoas que conhece bem, deixando por vezes emergir um registo mais onírico e simbólico, sempre ancorado no verosímil.

Equipa:

Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho, Diogo Nogueira, Marco Mendes, Sofia Barreira

Desenho de Exposição: Diogo Nogueira, Marco Mendes, Sofia Barreria, Tiago Romão

Montagem:  Carlos Pinheiro, Marco Mendes

Produção: Diogo Nogueira, Marco Mendes, Sofia Barreira

Comunicação: Irene Loureiro, Sofia Barreira e Sofia Neto

Material Gráfico: Adriana Assunção

Material Fotográfico: REGISTA