Exposição individual
02.05.2026 – 20.06.2026
UMA VOZ NA PEDRA
Tiago Baptista
© REGISTA
No fundo do horizonte violeta, nasciam pedras. Imensas e cinzentas montanhas minerais, que percorriam invisíveis distâncias até alcançar o coração terrestre. Na incandescência amarela do encontro, tornavam-se um único corpo — solidez mineral desfeita no magma alaranjado e cor-de-rosa, primórdio de toda matéria. No interior luminoso e cálido, resguardado por ondulações de cor, destino e origem confundiam-se. Do arco-íris gasoso, nasciam estrelas amareladas dançantes, conchas coloridas com formas volantes, um animal-rocha roxo que sonhava ganhar vida. Emaranhado telúrico que antecedia o tempo cronológico e quantificável. No fundo do horizonte tempestuoso, crescia um rochedo. Gigantesca montanha mineral, que voltava uma de suas faces ao nada infinito. Chovia através dos seus substratos multicoloridos, que contavam um tempo ainda por vir. A rocha matizada oscilava entre desfazer-se ou manter-se sólida, enquanto, aos seus pés, um pequeníssimo sol amarelo anunciava-se. Nem nascente, nem poente.
Era ainda a infância do mundo, quando nada tinha absoluta forma ou certeza de ser. A chuva caía magenta do céu, sobre as sombras de formigas-aranha que cumpriam caminhos através da terra azulada. Esferas de luz cintilavam contra o vazio lilás — flutuantes, pairavam fora da gravidade. O espaço não tinha ainda subordinado os corpos às leis da sua física. Um olho-bicho mimetizava a sábia paciência dos pedregulhos. No silêncio nascente, uma voz na pedra dizia…
*
Nas imagens apresentadas nesta exposição, Tiago Baptista parece enunciar formas que compõem uma “invisível dinâmica do mundo”(1). No esfíngico coro de elementos biomórficos e corpos minerais que cria, o artista confabula uma realidade impossível de situar cronologicamente. Não remete a um passado mitológico da criação do cosmo, mas tampouco se fixa em proféticas paisagens de um “fim” oriundo das diversas crises globais. Na verdade, as suas visões, por vezes próximas a devaneios oníricos, são afetas a uma ideia de infância do mundo em que origem e destino tornam-se paradoxalmente indissociáveis — como testemunhas emudecidas de um tempo em espiral e ambiguamente anacrônico. Posterior ao dia em que, enfim, o mar terá submergido cada palmo de terra continental, mas também anterior àquele em que um demiurgo teria decidido colocar a primeira vida na Terra.
Tais visões resultam de um fazer que é tanto filosófico quanto estético, na medida em que busca compreender a natureza das coisas antes de projetá-la de volta em imagem, e que perscruta a realidade através do prisma de uma imaginação crítica. Para fazê-lo, o artista recorre a uma estratégia já habitual em seu percurso, utilizando a ficção como um veículo formal para abarcar a sua relação com o mundo — uma reação à realidade, encarnada pelo poder imaginativo contido no gesto pictórico. Como mediador desta relação, ficcionalizar através da imagem é um exercício contínuo e talvez inerente ao seu fazer artístico, mesmo quando as figuras parecem tender à decomposição e à fragmentação.
Se, hoje, o universo imagético de Tiago Baptista parece distante daquele que o formou enquanto artista, em que figuras humanas protagonizavam cenas com expressivo viés narrativo, é preciso não ir ao engano — sob aspectos renovados, a pintura e o desenho continuam a ser a sua maneira própria de dialogar com o mundo, inquirir a sua essência e deixar-se afetar por ela. Não estamos, portanto, diante de um redirecionamento de seu olhar sobre o mundo, mas de um deslocamento na relação entre signo e significado, uma reconfiguração da própria linguagem pictórica. No vasto repertório visual de sua obra, permanecem centrais as mesmas preocupações humanas e sociais, a mesma curiosidade metalinguística, o mesmo fascínio por compreender as mudanças metabólicas nos ritmos da natureza e a mesma fé cega na liberdade do ato de criar.
(1) KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
Paula Ferreira, 2026
© REGISTA
Biografia:
Tiago Baptista (Leiria, 1986) vive e trabalha em Lisboa. Estudou Artes Plásticas na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. O seu trabalho, que se concentra principalmente na prática e no pensamento da pintura e do desenho, expande-se frequentemente para a banda desenhada, objectos pictóricos, instalações e publicações de artista.
Utilizando uma vasto arquivo de imagens, a sua obra resulta numa busca íntima e pessoal sobre a relação humana com a natureza, a paisagem, a cultura e a memória, onde as figuras colidem e dialogam entre o realismo e a abstração – recorrendo frequentemente a associações disruptivas de diferentes dimensões de espaço e tempo. Expõe individual e colectivamente desde 2008.
Equipa:
Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho
Desenho de Exposição: Sofia Barreira, Tiago Baptista
Montagem: Carlos Pinheiro, Marco Mendes, Sofia Barreira, Tiago Baptista
Produção: Sofia Barreira
Comunicação: Irene Loureiro, Sofia Barreira e Sofia Neto
Material Gráfico: Adriana Assunção
Material Fotográfico: REGISTA

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