Exposição Coletiva
13.09 – 31.10.2025

TUDO E NADA

Cláudia Amandi, Daniela Antunes, Jorge Marques, Paulo Freire de Almeida

Fragmentado

Entre a totalidade das coisas (tudo) e a negação da sua existência (nada) situa-se o título desta exposição.

A realidade depende de como a vemos e ao que atribuímos importância, tornando Tudo e Nada relativo. É neste contexto que a noção de totalidade e coisa nenhuma permite enquadrar a ideia de polaridade nos trabalhos reunidos nesta exposição: se por um lado está imanente a ideia de extremos opostos, de rigidez de posições ou de atenções, por outro lado, essa polaridade permite colocar em hipótese o seu contrário, ou seja, a semelhança em coisas distintas (entre o tudo e o nada), o nada como presença de algo, a tangibilidade da matéria como metáfora para habitar tudo.

Numa década de premente instabilidade, indeterminação e tensão, a dificuldade de estabelecer meios-termos empurra interpretações para precipícios, concentrando atenções nos extremos e tornando o absurdo vulgar e repetível. Tudo e Nada reflete esta polarização na forma como vemos, interpretamos, localizamos, utilizamos e construímos ideias, formas e lhes damos um corpo.

Tal como esta exposição reúne diferentes abordagens neste contexto, também este texto tem como objetivo oferecer diferentes perspetivas do que está reunido neste espaço. No lugar de uma única orientação que guia a leitura do observador, propõe-se a convergência de pequenos fragmentos, reunidos como uma espécie de compilação disseminadora de sentidos: referências a filmes, poemas, explicações científicas ou significados de dicionário, a par de pequenos textos escritos por todos os artistas que fazem parte desta exposição.

“tudo 1. Pron. indef. a totalidade das coisas, dos seres (Deus criou t. que existe) 1.1 (…) O conjunto das coisas ou seres que são objeto do discurso (trouxeste t. o que precisávamos?) (agradeço por t. o que fizeram por mim) 1.2 (…) a totalidade das coisas (concretas ou abstratas), sem faltar nenhum (t. é belo neste lugar) 1.2.1 (…) Todos os atributos, todas as qualidades (ela tem t. para ser uma ótima médica) 1.3 todas as pessoas, toda a gente, todos, o pessoal (já está t. aí, então podemos começar a reunião) 2. o que é importante, essencial; o que de facto conta (a saúde é t.)”
HOUAISS, António; VILLAR, Mauro de Salles, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, p.3799

“nada pron. 1 pron. indef. coisa nenhuma 2 alguma coisa 3 de modo nenhum, em grau nenhum 4 a negação da existência, a não existência; o que não existe; o vazio 4.1 situação que precede a ou que se segue à existência 5 aquilo que se opõe, contradiz, transcende ou se afasta do ser, em sentido absoluto, relativo, ou como mera construção linguística.”
HOUAISS, António; VILLAR, Mauro de Salles, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, ibidem, p.2723

“No espaço, o ‘nada’ chama-se ‘vácuo’. O Universo é composto por 74% de vazio; 22% é apenas matéria escura (matéria que só interage com a gravidade). Os restantes 4% são ‘realmente alguma coisa’, matéria tangível e mensurável. (…) A ausência de algo é realmente importante para o mundo. Hoje seria impossível viver sem o ‘zero’ para contar, o vácuo para tentar explicar o universo, o ‘nada’ que eles representam.”

“(…) no more painters, no more writers, no more musicians, no more sculptors, no more religions, no more Republicans, no more royalists, no more imperialists, no more anarchists, no more socialists, no more Bolsheviks, no more politicians, no more proletarians, no more Democrats, no more bourgeois, no more aristocrats, no more armies, no more police, no more fatherlands. Enough of all these imbecilities. No more anything. No more anything. Nothing. Nothing. Nothing.”
Cate Blanchett, em Manifesto, Julian Rosefeldt, 2015

“Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida e muda
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo. (…)”
Parolagem da Vida, Carlos Drummond de Andrade, 1973

“- Nothing is original, ok? You can steal from anywhere that resonates with inspiration and fuels your imagination, ok?
— Ok.”
Cate Blanchett, em Manifesto, Julian Rosefeldt, 2015

Das várias personagens que Cate Blanchett representa no filme Manifesto de Julian Rosefeldt, Blanchett interpreta a figura de professora primária. A cena é passada numa sala de aula e Cate escreve no quadro preto — “Nothing is original”. Como se de uma equação ou questão gramatical se tratasse, explica aos pequenos alunos que nada é original, que tudo pode ser roubado de qualquer sítio. São inspirações, elucida, que alimentam a nossa imaginação.

Cláudia Amandi, 2025

Biografia:

Cláudia Amandi — Ao longo dos anos, o seu trabalho como artista plástica foi convergindo para processos de repetição, interessando-se particularmente por aqueles que, na sua aparência mecânica de execução, deslocam o referente do resultado. Ações como aglomeração, variação, expansão, saturação e sobreposição de marcas e/ou materiais vão construindo malhas, imagens, matérias diferenciadas como sistemas de multiplicação de conteúdos. Expõe com regularidade desde 1995. Esta produção pode ser vista em http://claudiaamandi.weebly.com/. Licenciada na ESBAP em Artes Plásticas – Escultura (1993), é Professora do Departamento de Desenho da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e Membro Integrado do Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (I2ADS). Desenvolve trabalho de investigação na área do Desenho, ações e métodos de trabalho no processo criativo, e nos cruzamentos entre a escultura e o desenho. Doutorou-se pela FBAUP em 2010 com a tese intitulada Funções e Tarefas do Desenho no Processo Criativo, um estudo sobre o papel do desenho no processo artístico atual.


Daniela Antunes (1982) — Licenciada em Artes Plásticas – Escultura pela Universidade de Évora em 2006. Mestre em Desenho e Técnicas de Impressão pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto em 2013. Frequentou Design de Moda na Escola Superior de Arte e Design em 2019 e concluiu esse percurso no Modatex, Porto, com a coleção Elogio do Erro – Andar, Abraçar, apresentada no Bloom, PF em 2019. Desde 2020 tem trabalhado e investigado sobre Moda e Design de Produto Sustentável através do projeto individual Maison. Nesse percurso foi também Designer de Moda na marca (re)veste, incluída num projeto de intervenção social com o mesmo nome, onde desenvolveu oficinas de customização de roupa sustentável com jovens/adultos neurodivergentes. Paralelamente é professora de Artes Visuais. Realizou em 2023 a exposição individual Curso de Silêncio na galeria ARTLAB24. Neste momento encontra-se a preparar uma residência artística no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira, Brasil.


Jorge Marques — Artista plástico e Professor Auxiliar do Departamento de Desenho da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde leciona desde 1998. É membro colaborador do Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade — I2ADS. Doutorado em Arte e Design (2015), área científica de Desenho, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, com o tema O processo como circunstância do desenho — Contribuições para o estudo de modelos experimentais de processo. Licenciado em Artes Plásticas – Pintura (1996) pela mesma instituição. Enquanto docente e investigador do Departamento de Desenho da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tem-se debruçado sobre o entendimento das questões implicadas nos processos do desenho e como estas se podem tornar um meio viável do pensamento e conceção do desenho. Como artista, tem vindo a explorar a ideia de limite na definição de processos convencionalmente associados à pintura, ao desenho, à fotografia e à instalação.


Paulo Freire de Almeida (1968) — Licenciado na ESBAP em Artes Plásticas – Pintura em 1993. Desde 1997 é Professor de Desenho na Escola de Arquitetura, Artes e Design da Universidade do Minho, onde se doutorou em 2008 com a tese Mancha Directa – O Desenho como Perceção e Expressão de Valores Tonais. Atualmente é também investigador do Laboratório de Paisagens, Património e Território, Lab2PT. Na sua investigação artística tem explorado as condições e possibilidades do desenho de observação, pela sua dualidade entre o figurativo e o abstrato.

Equipa:

Direção Artística: Clube de Desenho

Curadoria: Cláudia Amandi

Desenho de Exposição e Montagem:  Carlos Pinheiro, Cláudia Amandi, Daniela Antunes, Jorge Marques, Marco Mendes, Paulo Freire de Almeida e Sofia Barreira

Produção: Sofia Barreira

Comunicação: Irene Loureiro e Sofia Neto

Material Gráfico: Adriana Assunção

Material Fotográfico: Diogo Nogueira e Matilde Rios Ribeiro

Estrela do Lima
Porto