…INILOTEMPORÉ / FACSIMILES…
ALÍRIO / CARLOS BARREIRA
07.06 – 26.07.2025
…das Cinzas, das Memórias e das Metamorfoses
Perpassa pelas obras, que Emília Alírio e Carlos Barreira agora nos apresentam, uma particular fenomenologia da metafísica. Neste registo, quase hermético e complexo, poder-se-ia acrescentar que as meta-narrativas constituem a sua essência.
Mas a verdade é que estas obras são o paradigma e a celebração da simplicidade. Uma simplicidade desconcertante, que parece assentar em despretensiosas manchas cromáticas, ou em insuspeitos movimentos e equilíbrios, que se desmultiplica pelo aqui e agora, nos momentos e pormenores presenciados, mas também pelos momentos que antecederam e condicionaram a génese de todas estas obras.
São, também, o olhar nostálgico e enamorado das descontraídas vivências tropicais de Emília Alírio, que evoca afinidades artísticas com Albers, Malevich e Rothko, e recorda Matisse ou Monet, mas que segue a sua própria demanda cromática e matérica, traduzindo, no seu cativante manto onírico e colorido, ora texturado e quase escultórico, ora quase uniforme e plano, uma vivência única, irrepetível e inimitável.
São, ainda, o olhar irónico, desprendido e sábio, de Carlos Barreira face ao establishment, à incúria, à indiferença e ao desprezo pela arte pública, frequentemente vandalizada, ignorada ou abandonada. Perante este desnorte, oferece-nos ele, com precisão, peso e medida, e a meticulosidade e o rigor de joalheiro, graus itinerantes de algumas obras desaparecidas, ironicamente reduzidas e metamorfoseadas, nas suas dimensões e na sua portabilidade, insistindo em nos recordar a hipnotizante e sempiterna Pedra Bolideira, indubitavelmente um dos seus nortes criativos.
Mas, estas obras, são subtil e magoada memória de uma outra trágica ironia. Memória do bombeiro e da árvore de Santa Comba, esculturas de homenagem aos bombeiros e à vida, construídas ao longo de mais de uma década, que, resistindo incólumes, embora, não conseguiram esconjurar inúmeros fogos ou o apocalíptico incêndio do ano passado.
Daquelas cinzas e daquele hiato, em que vida e arte quase ficaram suspensas, emergem ainda hoje as esculturas, como memória e celebração. Não uma mera celebração da sobrevivência, antes a celebração da vida, da reconstrução e do renascimento.
É por isso que, nesta exposição, todas as peças celebram a vida, a cor, o movimento e o momento, traduzindo o carpe diem de um casal que, ao longo de muitos anos vividos em comum, aprendeu o valor do momento, o reconfortante valor da presença de cada um, o valor inestimável das partilhas e dos afectos. E o valor absoluto da arte.
Biografia:
Alírio, Santa Maria de Bouro, 1945
Pintora, formada pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP) em 1977. Foi professora na Escola Especializada de Ensino Artístico Soares dos Reis, no Porto e, paralelamente à atividade docente, desenvolveu um percurso artístico que foi apresentando em várias exposições coletivas. Participou em diversas iniciativas artísticas nacionais e internacionais, como a Bienal Internacional de Arte de Gaia e a exposição “OBRA_DÁDIVA”, promovida pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo. Também integrou o projeto Identidades, no âmbito do apoio pedagógico à Escola de Artes Visuais de Maputo (Moçambique) e à Mei-a Escola Internacional de Arte, no Mindelo, Cabo Verde. Foi ainda membro da equipa organizadora do seminário “Os Desenhos do Desenho”. Entre os reconhecimentos que recebeu destacam-se o Prémio Aquisição Crédito Agrícola Alto Minho, na Bienal de Cerveira (2005), e o Prémio em coautoria na mesma bienal, em 2015.
Carlos Barreira, Chaves, 1945.
Escultor e Professor Associado, jubilado em 2009, da Escola Superior de Belas Artes do Porto/Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Entre 1975 e 1976 integrou o Projeto SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local, projeto que combinava práticas artísticas com intervenção social. Foi um dos cofundadores da Bienal de Cerveira (1978). Participou em simpósios de escultura e tem obras em vários espaços públicos. Expõe individual e colectivamente desde 1972 e, em 2009, apresentou na Câmara Municipal de Matosinhos uma grande retrospetiva “Carlos Barreira: uma questão de matéria”. Galardoado com o Prémio Fundação Engenheiro António de Almeida, o Prémio de Escultura Sonae (1996), o Grande Prémio da X Bienal de Vila Nova de Cerveira (1999) e o Prémio de Aquisição da Sociedade Nacional de Belas Artes.
Equipa:
Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho
Desenho de Exposição e Montagem: Carlos Pinheiro, Marco Mendes e Sofia Barreira
Produção: Sofia Barreira
Comunicação: Irene Loureiro e Sofia Barreira
Material Gráfico: Diogo Nogueira
Agradecimentos: Armando Ferraz e João Alirio
Apoios:
Catering:
