Exposição individual
15.11.2025 – 03.01.2026
DA NOITE PARA O DIA
SOFIA NETO
Da noite para o dia
Entre trechos e conversas fragmentárias, banais, a vida começa, a variedade humana revelada. “Outras pessoas” que não nós mesmos, na sua alteridade sempre inalcançáveis—tragédia ou maravilha? A missão de Ana, a protagonista desta banda desenhada (livro e exposição), não é “descobrir” o outro, mas antes “recobri-lo”.
A exposição nas redes sociais surge como extensão desmedida das nossas máscaras sociais, performance explorável e capitalizável por quem detém as condições da sua expressão, enoveladas na condição da precariedade contemporânea e no isolamento que se instala num tecido urbano indiferente. A ficção científica funciona sempre como comentário do nosso estado presente, e do amanhã imediato. A tecnologia central da intriga é administrada, mas não compreendida, por Ana; esta é uma mera “funcionária”, no sentido flusseriano, incapaz de dominar o dispositivo que opera, o qual, moderno ou não, sempre nasce e se inscreve numa hegemonia.
A narrativa intricada de Neto aproxima-se do thriller, com episódios em crescente tensão até ao encontro com Luca, que se submete voluntariamente às transformações do dispositivo.
Porém, as boas intenções têm o destino habitual: a degradação que espreita na ponta das tecnologias de ponta. Tiro, culatra.
O desenho de Sofia Neto equilibra uma linha nervosa, quase titubeante, com a solidez das figuras que esculpe. Os gradientes de cinzento e azul conferem ao trabalho uma presença elétrica, clínica, até cínica. A composição das páginas sóbria está menos interessada em pirotecnia gráfica do que na atenção aguda às relações entre personagens; imbricado na trama, observa-se o aumento gradual do toque físico: o conhecimento buscado encontra um caminho háptico, cada vez menos digital — ou melhor, eletrónico, já que o “dígito”
permanece. Luca resume: “as transformações são todas físicas”. A ontologia humana não se desprende da sua maior materialidade: a do corpo.
A exposição de banda desenhada cumpre um duplo propósito: estimular a leitura e fabricar um tempo distinto, de observação e contemplação dos gestos e expressões que antecedem o burilar final. Essa faceta intensifica-se pelo acesso a elementos “arqueológicos” do processo criativo, lembrando que a vida da obra reside na sua reprodutibilidade técnica. O “original” não existe; apenas vestígios dos pré-gestos que o livro, como texto total, constitui.
Onde está o “original” de Ana?
Pedro Moura, 2025
Biografia:
Sofia Neto é autora de banda desenhada, ilustradora, professora e investigadora. Tem vários livros de banda desenhada publicados, incluindo “Cicatriz” pela editora Polvo, e participa em várias antologias e livros de banda desenhada e ilustração. Tem um doutoramento pela ARU/Cambridge School of Art em Livros Ilustrados para a Infância, um mestrado em Banda Desenhada pela EESI/Université de Poitiers em Angoulême e licenciou-se em Artes Plásticas – Multimédia pela FBAUP. É professora de desenho, ilustração, banda desenhada, narrativa gráfica e desenvolvimento de personagens em várias instituições, nomeadamente Clube de Desenho, FBAUP e ESAP.
Equipa:
Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho
Desenho de Exposição e Montagem: Carlos Pinheiro, Marco Mendes, Sofia Barreira e Sofia Neto
Produção: Sofia Barreira
Comunicação: Irene Loureiro e Sofia Neto
Material Gráfico: Adriana Assunção
Material Fotográfico: Carlos Campos














