Exposição individual

07.03.2026 – 25.04.2026

A MÃO ESQUERDA DAS TREVAS

Isabel Carvalho

Escrita Involuntária

Faziam-se sacudir as pedras nas mãos fechadas uma na outra em concha. Eram lançadas a sopro para que se formassem as primeiras imagens. Havia quem queimasse incenso e traçasse figuras em areia depositada em grandes travessas enquanto observava os fumos. Eram jogos de liberdade. Eram imagens que não se fixavam.

Aprendíamos a superar a timidez nos enunciados. Breves. As palavras fazem voos rasantes, bebem água. Aprendíamos a não saber de onde vinham, as imagens.

As pedrinhas curiosas encontradas junto a cadáveres exumados. Não erámos os primeiros a chegar. Formas avulsas, côncavas, contorções de osso, sempre indicam o que não são. Como crostas de pão, nódoas tintas na toalha, manchas nos muros antigos.

Atraía-nos a natureza no instante em que nos afastávamos dela, despertávamos assim para a estranheza e a curiosidade. Imaginação fecundada, adormecíamos a rodá-las entre os dedos com os olhos humedecidos. Durante o sono faziam-se outras leituras; ainda estávamos longe desses oráculos para onde se enviavam mulheres com palavras administradas.

Era ali que nos encontrávamos, na necrópole das intuições. Onde contávamos as histórias mais curtas, fábulas por onde espreitar fora da consciência amarrados às costas de um tigre. Era ali que aprendíamos a olhar pela primeira vez. A cada vez. Sem mistério. Sem portas de serviço começamos a atravessar paredes. Aquelas onde nas noites húmidas os caracóis traçam curvilíneas em todas as direcções.

E quando nos perguntassem como tínhamos chegado ali, fosse onde fosse, em uníssono respondíamos: usamos a imaginação.

Sempre que nos perdíamos assobiávamos. Era um tique inesperado num texto irreparável. Assobiávamos com o vento enquanto nos deixávamos escorregar pelos taludes arrastando um pau firme pelas areias e as cinzas. Passagens onde não voltaríamos a fazer chão. Não ficávamos à porta nem pedíamos licença. Não tínhamos sido convidados.

 

Daniel Costa, janeiro 2026

Biografia:

Isabel Carvalho (Porto, 1977) O seu percurso artístico caracteriza-se por uma forte componente experimental, sustentada na investigação, sobretudo nos domínios da filosofia e da literatura, expandindo-se para os campos político e social. O seu trabalho cruza artes visuais, escrita, edição e publicação de livros, sendo marcado por uma sensibilidade ética, enraizada em questões de ecologia, género e relação entre espécies.

Entre as suas exposições individuais mais recentes, destacam-se: Editoria Errância, na Culturgest (2024, Lisboa); Mimológica, na Galeria Quadrado Azul (2025, Lisboa); Casting a Sounding Voice, no CAAA — Centro para os Assuntos da Arte e da Arquitetura (2023, Guimarães); Museu Mineiro, na Galeria Quadrado Azul (2022, Porto); e Langages Tissés, no Centre d’Art Le Lait (2021, Albi, França). Participou ainda, em contexto coletivo, em diversas exposições, das quais se destacam: Da desigualdade constante dos dias de Leonor, no Centro de Arte Moderna – CAM (2024, Lisboa); Derivas e Criaturas, na Galeria Municipal (2023, Porto); e Strange Attractor, no Pavilhão Branco (2021, Lisboa).

Realizou residências artísticas internacionais no PAN (Paris), NTU Centre for Contemporary Art Singapore (Singapura), Künstlerhaus Bethanien (Berlim, Alemanha) e Maaretta Jaukkuri Foundation (Lofoten, Noruega). Em Portugal, participou, entre outras, nos Encontros da Primavera (Picote), Performing the Archive (Porto) e na OSSO (São Gregório).

Em 2017, fundou e passou a editar a revista transdisciplinar Leonorana.
É membro fundador e presidente da EARTHSEA — Associação Cultural dedicada à promoção e disseminação da investigação artística interdisciplinar, com enfoque na interseção entre ecologia e tecnologia.

 

 

Equipa:

Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho

Desenho de Exposição e Montagem:  Carlos Pinheiro, Isabel Carvalho, Marco Mendes e Sofia Barreira

Produção: Sofia Barreira

Comunicação: Irene Loureiro e Sofia Neto

Material Gráfico: Adriana Assunção

Material Fotográfico: Diogo Nogueira

Estrela do Lima
Porto