Exposição individual
10.01.2026 – 28.02.2026

A MÁQUINA ZERO

NUNO SOUSA

Fazer Tempo

Arqueologia do (In)Visível ou o (E)Terno Retorno

Talvez devesse começar por me confessar uma amiga de longa data, cúmplice comovida, parcial e incapaz de distância crítica ou analítica. Mas a verdade é que provavelmente este possa ser um lugar de privilégio para falar de toda essa “dificuldade de ver”, esse exercício exigente de apreender a ver no escuro que atravessa a pulsão de desenhar do Nuno. Ver de perto, às vezes, mostra-nos a mosquinha na ponta do nariz que anuncia uma porção de verdade inacessível à mera inteligência.

A prática de Nuno Sousa — artista, docente do e no Porto, e co-fundador do vital Clube de Desenho — começa sempre em tropeços, em solavancos, in media rés, tal qual a vida que começa já aos gritos inarticulados e aos soluços, plena de uma inclinação informe a existir. Nascer, começar é um princípio ontológico e político per si, porque é já rasar um Não a esse fantasma de apagamento, tal qual um bolbo irrompendo na calçada, daninha crescendo no relvado, inusitada porção de mundo que faz saltar e encravar a aniquiladora e uniformizadora Máquina Zero.

Nascido de um medo infantil induzido por uma canção, esta imagem ao mesmo tempo industrial, militar, apocalíptica e cómica de uma máquina zero ( a que rouba as jovens melenas na canção do Rui Veloso, a que, como vento misterioso e assustador, rouba os cabelos do pai, a que na narrativa biográfica acaba por encarnar o pânico arquetípico de uma castração ou perda de potência, como a da Sansão) cristaliza o combate contra uma máquina que tem tanto de abstracto como de concreto e que elimina o tempo, a memória, as imagens, a vida. Baixo esta ameaça fantasmática e ao mesmo tempo corpórea, o labor diário de erguer imagens torna-se um gesto de travessia e sobrevivência: uma arqueologia pessoal escavada com o que está mais à mão. Há cor e crayons, brincadeira, mas há sobretudo o preto e branco da tinta-da-china, das canetas finas de diário gráfico, as canetas meigas de professor de desenho, uns carvões, umas grafites, uma gradação de cinzas. Esta paleta ganha uma leitura que não é apenas a de uma voluntária economia ou tipologia disciplinar: é um acerto radical entre o que está e o que não está, entre o propósito investigativo e detectivesco sobre o próprio modo espectral como imagens e memórias de constituem num jogo de tanto fumo e pó que há que escandir lentamente luz e sombra, num afloramento de contrastes difíceis onde a invenção, a imaginação, a apropriação, a narração, a repetição, a cópia, a observação, o erro, o acaso convivem num húmus que convida mais a um passeio que à fundação de uma arquitectura. Há qualquer coisa de uma convivência inusual entre uma estabelecida radiografia nocturna uma proliferação de restos diurnos, vozes que em cânones muito variados: ora acertam casualmente afinação e harmonia, ora são coros inteiros compostos e arranjados contando histórias, ora são burburinhos de esplanada entre o riso e o ruído.

Sim, acho que há qualquer coisa muito oralizante na forma como o Nuno trabalha. E não é só porque ele também é compositor, e músico, e professor, nem apenas porque, apesar da suspensão não linear de muito do seu universo não ser do âmbito da estruturação grande eloquente, há nele e no seu grafar imparável uma vontade efectiva de contar alguma coisa, de se contar: mas sobretudo porque comove essa sensação sempre presente de que estamos a visitar a sua vida e que ele vem falar-nos, terna hospitalidade, sobre aqueles artefactos.

O desenho cumpre essa relação justa com a pedra, justa com a vida: imagem-sintoma e exercício psíquico de recuperação. Uma tosse repetida sem origem orgânica, uma insistência gráfica. É tentativa narrativa e fracasso assumido: “registos de ideias abandonadas ou em espera”, apontamentos de ideias vagas, histórias que não se fecham, memórias que são sensações sem limite. Não se têm as ideias claras e, mesmo assim — ou precisamente por isso —, avança-se. A dificuldade de ver, de dizer, de dar a ver, torna-se o próprio motor. Tricotar em torno do centro vazio, fundacional, buraco antes ausência, para o fazer palpável perceptível, táctil, integrado, constitutivo dos motivos de uma renda que só o último ponto dirá como terminada. É esse o trabalho da memória e do onírico, sempre em elaboração e delírio, dança interminável entre caçador e caça.

Neste regime, a conjunção de imagem e marginália é mais que uma marca, é um método: nunca se sabe que acidente, por mais pequeno que seja, nos vai revelar a vida inimaginável, a chave para o próximo passo, a forma certa de tocar o outro e o transformar. A coisa erguida e sua energia.
Sem grandes truques revela uma lógica constelacional: as coincidências significativas das datas familiares, as mortes, os nascimentos, os acidentes, os amigos, a família, as férias, as sestas, — narrativas difíceis que nos constituem e, por vezes, nos encarceram. A experiência de um corpo que sempre deambulou entre a intensidade e a incompreensão encontra, no acto de desenhar, uma morada provisória. Esta prática é, antes de mais, profundamente relacional: instrumento de diálogo com os dias, com o trabalho, com o acto de pensar, de aprender, de perguntar, de amar.

E no meio disto, uma cintilação entre o humorístico e o absurdo. Uma capacidade de sorrir, se não com tudo, pelo menos apesar de tudo. Não precisamos de ser Sísifo nem Sansão, mas também, podendo, não queremos ir à Máquina Zero. Esta leveza é aparente: é uma resistência. Como Penélope, o Nuno tece e desfaz, sabendo que o trabalho contra o apagamento é infinito, vai derrotado à partida, mas vai, sabendo até que toda a autoria é, de certa forma, uma impostura. Resta o definitivo e não dizível pôr-se a fazer, ou melhor, pôr-se a fazer tempo.

Esta poética é também uma política do tempo. Professor, investigador, pai, amigo, gente, o seu “fazer tempo” adquire um sentido literal de conquista: fabricar, a partir do esgotamento, o capital mais escasso — o tempo puro da criação. Esse que se vende através da força do corpo para, em troca, se poder (sobre)viver. A interrupção (doméstica, pedagógica, familiar) torna-se matéria-prima. A sua prática, dispersa entre o diarístico, a banda desenhada e a pedagogia, é uma economia adaptativa ao ritmo sincopado de uma vida de classe média (também esta cada vez mais um fantasma difícil de ver, no escuro). O radical do seu trabalho está em fabricar valor simbólico onde o tempo escasseia, subvertendo a derrota anunciada em única possibilidade de vitória: a vitória da continuidade frágil. Ganha, como tantos de nós, a vida a perder.

A questão de classe não se diz, não se grita, está entretecida, mostra-se: na economia dos meios, no tempo roubado, nos temas das quase-histórias. Dar imagens ao tempo e à memória é, então, um ato de reversão, de um doce riso na cara da morte: dar bois aos nomes, em vez de nomes aos bois.
“Fazer tempo” é este milagroso e comezinho fabrico. Um instrumento relacional que, a partir do cansaço, do fracasso e do amor, inscreve um sulco teimoso na paisagem comum. Contra a máquina faminta, absurda implacável, opõe-se a possibilidade humana, imperfeita e afetuosa, que desenha para que algo — um fantasma, um laço, um dia — permaneça.

Esta exposição é menos uma síntese pública desta arqueologia e mais um convite a um passeio por ruínas vivas, por uma colecção vibrante de “pedras atiradas ao charco” durante uma década: cada ondulação um registo de um instante roubado ao apagamento. É a afirmação, mesmo que o não queira, de que a arte mais radical pode ser aquela que aceita a interrupção, a incompletude o eterno-quase como condição, e a fragmentação como linguagem, fabricando tempo onde ele antes parecia não existir. Alquimia de minudências.

Mas caramba: olhamos para estes papeis e cadernos, e pranchas, e tentativas, e acertos, e falhanços e é impossível não pensar: Meu deus, Nuno, tanto trabalho! Tanta inteligência, rapaz! (Que é como quem diz: tanto tempo, tanta vida, tanto capital, tanta ternura.)

 

Marta Bernardes, 2025

Biografia:

Nuno Sousa doutorado pela FBAUP (2017) com uma tese sobre Desenho e Narrativa Gráfica.

Tem trabalhado como docente de Desenho e Ilustração em diversas instituições, (FAUP, desde 2009), FBAUP, EAAD, IPCA.
Co-fundador do colectivo artístico Senhorio (2004-2008) e do Clube de Desenho (2010-), espaço dedicado ao ensino, investigação e divulgação sobre desenho. É investigador colaborador do i2ADS/FBAUP.

Expõe e publica trabalho de desenho, narrativa gráfica e ilustração desde 2005.

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Equipa:

Direção Artística e Curadoria: Clube de Desenho

Desenho de Exposição e Montagem:  Carlos Pinheiro, Marco Mendes, Sofia Barreira e Nuno Sousa

Produção: Sofia Barreira

Comunicação: Irene Loureiro e Sofia Neto

Material Gráfico: Adriana Assunção

Material Fotográfico: Diogo Nogueira

Estrela do Lima
Porto